Idade Mídia abre inscrições

Alunos do segundo ano do Ensino Médio de todas as áreas interessados em participar do curso extracurricular Idade Mídia já podem se inscrever no Departamento Cultural.

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O curso é para que todos aqueles, independentemente de que profissão vão seguir, possam entender como funcionam os veículos de comunicação e desenvolvam expressão e opinião”, afirmou o jornalista Alexandre Le Voci Sayad, um dos coordenadores do curso.

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Os encontros acontecem todas as sextas-feiras das 13h50 às 15h30, e conta com debates e  visitas de jornalistas, publicitários e cineastas, dentre outros. Os estudantes do curso buscam inspirações para produzir um produto de comunicação, seja uma revista, um documentário ou um filme a ser lançado no fim do ano.

Inscrições na sala virtual.

ATENÇAO: As vagas são limitadas e o primeiro encontro acontece em 13/02 – próxima sexta.

Devê-la-á

Caso um indivíduo desconheça a norma culta da gramática portuguesa, devê-la-á aprender. Caso não faça uso da mesma, apesar de possuir o conhecimento necessário para isso, há de ser considerado um herege. Não se trata de um conceito de difícil compreensão, mas tantos tendem a ignorá-lo! Como hão de se comunicar de forma efetiva? Como hão de compreender uns aos outros? Desde o evento da Torre de Babel, após o qual a língua universal haveria sido dividida em várias, coube a todos nós coalizarmo-nos no esforço de tornar nossas falas, antes ideias e sons desordenados, conceitos! Destarte, cujo vocabulário fazer-se-á incompreensível, por obséquio, um vernáculo melindroso sempiternamente, balbúrdia ignóbil, admoesta, rubicundo pernóstico a tergiversar…

Mano, é foda isso de ser culto.

Casca de Noz

Sou covarde, tenho o coração pequeno
Abro meu guarda-chuva se as gotas me parecem lanças
Fecho as persianas se o céu cinzento parece que vai cair e me esmagar
Apago os desenhos se eles ameaçam sair do papel e me assombrar
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Sou um fragmento de algo ínfimo.
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 Somos o centro do universo imaginado pela cabeça de um alfinete
Mas somos coadjuvantes na nossa imaginação
Vivemos reféns de grandes imagens e poemas que criamos
Mas somos ínfimos, produtos do agir e escravos da sensação
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Somos um todo desprezível
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Grãos de areia do tamanho do universo
Somos o que existe e o oposto do inverso
Somos gotas, nuvens, rabiscos, cabeças de alfinete
Tudo o que com tanta dificuldade guardamos dentro de nós
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Cabe sem nenhum problema numa casca de noz
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Tudo o que somos
Todos os lugares aos quais fomos
Tudo o que fizemos
Tudo o que seremos
.
Cabe sem nenhum problema numa casca de noz.

O Mal de Parkinson atinge mais a juventude do que a terceira idade

Primeiramente: era ela apaixonada por tais segundos. Além disso, criava facilmente proximidade com terceiros, não importa o quão distantes fossem. Era andarilha da metrópole: passava o dia em fuga da própria casa. Mas toda noite quando não pudesse mas combater seu cansaço e lá chegasse era aquele seu refúgio da sociedade e estava ela aliviada com a tranquilidade do lar. E largava logo disso e ansiava pela manhã quando iniciaria novamente seu percurso desconhecido, redescoberto todo dia. Em seu caminho adorava sorrir para a cidade. Não sem motivo, lógico, que ela não era nada louca. Agradecia poder sorrir, agradecia que fosse feita sorrir. Por isso se derretia de amores por momentos delicados flutuando no dia-a-dia vazio como uma folha verdíssima que dança na superfície de um lago cristalino. Encantava-se em encontrar pureza e beleza nesse mundo tão à parte das fantasias perdidas nas raízes de seus revoltos cachos castanhos. Passava o tempo parado no caminho desenhando e desenhava apenas o que queria ver fora do papel. Num desses devaneios quase perdeu, não pela primeira vez, o tempo para sair do vagão do metrô. Apressada e desastrada, com talvez cachos demais à frente dos olhos, tentou carregar todas suas folhas e cadernos. Saiu a tempo e parou para organizar-se e coordenar o que faria a seguir, mais uma vez ela havia se apagado do mundo ao redor e tentava lembrar aonde iria. Ela ouviu o barulho antes que pudesse perceber o que acontecia. Em câmera lenta viu seu lápis de traço denso rodopiar pelos ares, tendo escorregado da superfície de seu caderno, e cair no chão quicando algumas vezes apenas para que ela se certificasse que seu grafite estaria completamente estraçalhado. Ela desesperou-se, senão pelo seu instrumento mas pelo embaraço da situação. Antes que pudesse tomar uma ação prática um senhor interviu. Seus óculos de tartaruga escorregaram pelo nariz adunco enquanto seu rosto rosava-se pelo esforço de contrair as juntas já gastas para agachar-se, segurando ao lado do corpo sua bolsa de carteiro cor de couro claro. Seu terno cinza escuro estava descombinado com as calças bege-claro, ainda mais com a gravata borboleta amarela sobre a camisa azul-claro, mas sua imagem continuava sendo perfeita. De cima, ela via apenas seu ralo cabelo branco que pouco cobria a pele vermelha. Em questão de segundos lá estava um autêntica cavalheiro, um simpático senhor vindo de tempos onde sua atitude era comum e até insignificante, ajudando-a apenas pelo próprio ato. No entanto, seu intuito falhara, não conseguiria reviver seus anos de mocidade preso nesse corpo ancião. Sua mão esticou para os lápis, mas este, maldoso como só ele, insistia em dançar pelas pontas dos dedos rechonchudos que já não mais controlavam completamente os próprios movimentos. A tremedeira que frequentemente apossa-se do corpo de quem já viveu muito se manifestava diante da bela jovem. Ela não pôde evitar se emocionar com a cena: quantas boas ações já não teriam executado aquelas mãos que hoje penavam para compor atos mínimos como pegar um lápis? A natureza é linda, mas munida de tempo torna-se tirana, impede o ser humano de ser humano e agir bondosamente. As lágrimas formavam-se por empatia e compaixão no coração da menina nos poucos segundos que se descorriam desde o início da cena e estava ela tão submersa nas ondas de seus devaneios que nem percebeu quando o senhor pôs-se de pé, revelando seus olhos azuis. O lápis estava preso em seu aperto firme (ainda que um tanto trêmulo) e no lugar de uma feição envergonhada pela própria condição de idoso esperada pela menina estava um sorriso caloroso. Então, com um humor de quem já viveu muito para se importar com tremedeiras nos dedos ele disse, enquanto passava o lápis para a menina:

– Hoje em dia as coisas são modernas né? O lápis até parece que tá vivo!

E sua gargalhada ao subir a escada rolante ecoou por dias na mente da moça, que nunca conseguia evitar sorrir quando entrava em contato com a lembrança. De fato, hoje em dia as coisas são modernas: o jovem sofre mais com a velhice do que o próprio velho.

 

A lua

Certa noite sonhei que era a lua
E eu ficava lá estatelada,
Branca, gorda e nua
No céu de noite estrelada

Sonhei que era o amor
Em estado sólido e puro
Eu afugentava a dor
E salvava as pessoas do escuro

Eu nunca era maior que um polegar,
Sempre assumia as mesmas posições
Pegava emprestada a luz solar
E aquecia todos os corações

E enquanto sonhei que era a lua
Meu perfil se projetava por ela
Eu era a infância crua
E nunca me senti tão bela

Garoa

Gosto de dias de chuva, ou melhor, dias de garoa…Acho que  são inspiradores. Há uma certa melancolia na água que cai, como se o céu estivesse chorando. Há também certa tranquilidade na garoa fina e constante da cidade. Tudo fica em um humor diferente…O mundo gira mais devagar num bom sentido e as pessoas param mais para refletir. Olhar pingo por pingo, senti-los na pele…Simples, sem complicações.  Na chuva há paz e serenidade.  São dias que você pode ouvir o céu sussurrar em seus ouvidos, não só carros e buzinas. Acalma e conforta os aflitos, mostrando que até o céu sofre de vez em quando e até ele chora. Gosto de sentar e observar a cidade e o movimento quando chove, é como ver a vida desacelerando. Gosto de poder sentir aquele cheiro de terra molhada que me faz lembrar a natureza. E gosto do nublado que precede a chuva, a união das nuvens para encobrir o céu… Não tenho nada contra dias de sol e a alegria que eles trazem, mas acho que dias de chuva têm sua própria beleza, têm seu próprio estado de espírito. Não há nada que eu goste mais do que um bom dia de garoa…

Ser sem ser.

Objeto inútil
Violão sem corda
de preço baixo
barato, sou eu

Velho, empoeirado
pessimista
sem valor
baú de lembranças ruins, sou eu

Corpo sem alma
objeto de uso
prostituto ultrapassado
Repito: inútil, sou eu

Descartável
não reciclável
apenas usável
mesmo que inútil, sou eu

Ser remoto!

Remoto
sem chão
sem noção
sem espaço… remoto

Remoto
sem cor
sem brilho
opaco… remoto

Remoto
obscuro
sem luz
invisível… remoto

Remoto
desesperador
angustiante
sofredor… remoto

Remoto
confuso
enlouquecido
esquecido… remoto

Remoto
longe de tudo
perto de nada
longe de perto… remoto